quarta-feira, 18 de junho de 2008

Amanhã se repete o inevitável errado

Ele bate a porta de casa e sai. Ela chora. Estava confusa. Os momentos ruins pareciam não terminar. Vai até o espelho do banheiro só pra conferir o tamanho do hematoma no seu rosto. Um rosto azul, preto e roxo. E um olho bem mais roxo. A Justificativa para aquele olho roxo era simples: seu marido perdera o controle. Paciência tem limite, e junto com ela se fora o auto-controle.
Horas mais tarde ele volta. Ri, olhando-a com seus olhos psicóticos. Ele distribui tapas, socos e chutes. Distribui um novo olho roxo. E ela chora até conseguir dormir. Era assim todas as noites. No dia seguinte, sempre a mesma história. Ela vai até o espelho do banheiro só pra conferir se seu rosto ainda era reconhecível por trás das marcas da surra. Mas não era reconhecível nem para ela mesma. E como uma criança ela tenta se esconder equanto ele tenta justificar o que não é verdade.
Enquanto ele desaparece, ela senta ao lado do telefone esperando por uma ligação. Só uma satisfação. Mas ele não ligava nunca.
Várias cervejas mais tarde, ele volta pra casa sem dizer por que desapareceu. Ela questiona suas mentiras e ele vai pra cama sem uma resposta. Ele dizia: "Desculpa. Amanhã será uma nova história."
Claro que amanhã seria uma nova história. Ele justificaria o olho roxo da mulher com uma outra nova desculpa.
Ela faz as malas e pretende ir embora. Mas ele a pega na porta, a abraça e beija, cheio de "não-sei-porques" enquanto lágrimas descem de seus olhos perfeitos. Enquanto lágrimas descem dos fundos olhos roxos da mulher. Desculpas até o anoitecer, e ela fica.
Amanhã será um novo dia.
Amanhã ela terá um novo olho roxo, com uma nova desculpa.