domingo, 25 de maio de 2008

Gelo

Era uma vez um rapaz com uma maldição. Tudo que ele tocava, congelava. Se tocasse uma árvore, logo ela morria. Surgia uma grossa camada de gelo em volta da árvore, que ia até os menores e mais finos galhos lá do alto. O rapaz ja havia transformado vários de seus amigos em estátuas de gelo, e assim desistiu de levar uma vida. Passou a vagar pelo mundo, feito um andarilho, conhecendo lugares novos e não conhecendo pessoas.

Mas um dia, ele passava por uma rua quando avistou fumaça saindo pelas janelas de uma casa. Ele correu até a porta da casa, onde havia um grande tumulto de pessoas curiosas. E alem dos curiosos, estavam os moradores da casa - pai, mãe e filha - com lágrimas nos olhos enquanto assistiam a triste consumação da casa pelas chamas. O rapaz correu pra dentro da casa e no meio da sala, colocou sua mão no chão. O chão em volta de sua mão logo cristalizou, e o gelo foi se espalhando pela casa. Se espalhou pela sala , e por alguns móveis dela. Chegou até a cozinha onde o incendio começara, e logo se espalhou até chegar no fogão que originou o fogo, e nas cortinas que o ajudaram a queimar o resto da cozinha. Embora houvesse gelo por toda a casa, perdeu-se menos do que se ela houvesse sido completamente queimada.

A garota ainda tinha lágrimas nos olhos, mas agora era feliz por ter tido sua casa salva. A mãe dela correu pra abraçar o rapaz que salvara a casa, mas ele se esquivou pra evitar tocar a mulher, e deu as costas, indo embora. A garota correu atrás do jovem.

- Espera! - Disse a garota.

O rapaz olhou para a garota, mas não disse nada. Ela continuou:

- Pelo menos me diz seu nome.

- Gelo. - Disse o rapaz depois de um breve silencio.

Ele se virou e foi embora. A mãe e a filha estavam felizes. Mas o pai não. Preferia ter perdido a casa em chamas do que tê-la salva por um monstro que congelava as coisas.

Algumas semanas depois, o rapaz que se dizia chamar Gelo contemplava a beleza de um lago que ficara pouco distante da sua cidade. Ele vê um rosto familiar que se aproxima. Era a garota da casa do incêndio, que ja estava seguindo o rapaz havia dias.

- Como me encontrou aqui?

- Tenho te vigiado. Eu sei que você vem sempre aqui no lago.

- Pra quê?

- Eu só queria te agradecer pelo que fez por mim.

- De nada - diz Gelo. Ele vira as costas e começa a andar.

- Espera!

Ele olha pra trás.

- Pode congelar o lago?

Ele toca a água. Rapidamente, uma espessa camada de gelo se espalha e cobre toda a superfície das águas do lago. A garota que já esperava por isso, tira de sua mochila um par de patins. Patins de gelo. Ela os veste e patina no lago congelado.

Gelo sentiu felicidade depois de muito tempo. Havia feito a garota feliz. Duas vezes. Ele vai para o lago e brinca com a garota, mesmo sem patins. Mas quando ela ameaça a chegar perto dele, ele esquiva dela e sai de perto.

- Eu não mordo. - Diz a garota.

- Mas eu sim. Digo, não mordo. Mas congelo. Você se tornaria uma estátua de gelo, como todos os outros.

- Eu morreria feliz. Melhor do que viver minha vida. Congelaria a mim, mas não a meu coração. Ele sempre será quente. E nesse momento, está apaixonado por você.

Aquilo foi recebido feito uma pancada. Para quê Gelo se envolveria com uma garota? Para transformá-la numa estátua de gelo? Ele saiu do lago e desapareceu. A garota, triste, voltou para a casa.

O problema no fato da garota ter seguido o Gelo, é que o pai da garota seguiu a garota. E agora o pai tinha certeza de que o jovem era um demônio. Alem de congelar a casa, havia congelado todo o lago.

Alguns dias depois, a garota corre até o lago e econtra o jovem Gelo parado por perto. Ele vê a garota, mas não fala nada.

- Olha, você tem que fugir.

- Como?

- Meu pai pagou uns caras mal-encarados para que te matassem.

- Eu sabia que isso ia acontecer. Onde eu tava com a cabeça quando congelei o lago pra você?

Ele tenta ir embora andando, mas era tarde. Quatro sujeitos armados vinham na direção dele.
Ele vira e tenta fugir por cima do lago congelado. A garota corre atrás dele. Mas no meio do lago, Gelo escorrega e cai. Mais quatro mal-elementos chegavam pelo lado de trás do lago, eliminando as chances de fuga do rapaz.

Alguns deles preparam suas armas de fogo, e dispararam na direção do rapaz. A garota
se joga no chão para não ser atingida pelos disparos. Gelo permanece imóvel. Alguns tiros o acertam. Era melhor assim. Um alívio. Sair daquela vida amaldiçoada dos toques de gelo. Mas a garota se levanta. Desistira de ficar no chão, e se coloca na frente do rapaz. Ela não ia deixar que o matassem. Os mal-elementos se aproximam, pegam a garota e disparam mais três vezes no rapaz. Ele se ajoelha no chão.

- Não! Por favor! Me larguem! Deixem ele! - gritava desesperadamente a garota.

Mas eles não largavam.

- Quanto a cabeça dessa garota deve valer? - pergunta um deles.

- Muito. - responde um dos outros.

- O pai dela é rico. Ele pagou uma nota pra matar esse cara aí. Agora a gente sequestra ela e a
grana pelo resgate vai ser a grana mais facil da nossa vida.

Aquele diálogo mexeu com o Gelo, que jé era um semi-morto. Ele que estava de joelhos, se levanta, puto. Dois caras o atacam pelos lados. Ele rapidamente coloca suas mãos nos pescoços dos dois, e eles logo se tornam estatuas de gelo. Gelo as arremessa em cima dos outros que não estavam perto da garota, e todos morrem esmagados. De longe, o pai da garota que observava o sucesso de seus capangas, tambem viu que eles ameaçaram sua filha, e agora não sabia para qual dos dois lados torcer. Estava desesperado.

Só haviam mais três caras perto da garota. Eles abrem fogo na direção de Gelo. Ele é baleado várias vezes até que a munição das armas dos três acabasse. Ele anda cambaleando na direção da garota. Cai várias vezes devido ao escorregadio gelo sob seus pés. O gelo sob os pés do Gelo.
Os três sujeitos partem para a agressão física. A garota gritava e chorava, desesperada devido à violencia com seu novo amado. Mas Gelo era bom de briga. Com um soco em cada, ele os transforma em estátuas de gelo, sem volta, pra sempre.

Bem devagar, ele chega perto da garota. Continua de pé. Ela chega ainda mais perto dele.

- Por favor, não. Você morreria. - Diz Gelo.

- Eu não me importo.

Era o momento do pause. Tudo parado. A vida se resumia naquele momento, onde nada mais existia. Um momento onde o universo consiste apenas de dois apaixonados prestes a trocar um beijo. As lagrimas descem pelas bochechas do rapaz. Bem devagar, os lábios da garota tocam os lábios do jovem. Lentamente, o rosto da garota foi ganhando um aspecto pálido. Foi empalidecendo vagarosamente até ficar tão pálido quanto o rosto de um morto. Os lábios se separam.

A garota junta todas suas forças nas suas ultimas palavras:

- Eu.... não.... me tornei uma... estátua...

A maior prova de que Gelo amava de verdade a garota, era que ela não havia se tornado uma estátua. Se ele estivesse completamente consciente, provavelmente teria chances de controlar sua maldição, e não congelar a garota depois do beijo. Mas ele estava morrendo.

Ela não se tornou estátua, mas o frio foi suficiente para matá-la em um congelamento súbito.
Os dois caem no chão gelado que cobria o lago, e ele cede. Quebra, e os dois caem no lago que ainda é água em baixo da crosta de gelo. Logo que eles caem, a superfície do lago que havia quebrado se congela novamente. Os corpos dos dois ficaram embaixo da espessa camada de gelo que cobria a superfície da água.

O lago permaneceu congelado, eternamente.

4 comentários:

CattyEcologia disse...

Fiquei imaginando quando iria atualizar! vivaaa

o texto lindo!
muito triste por sinal...

:}

Anônimo disse...

Muito True.
A Histori e triste e se assemelha muito com a vida real( não a parte de congelar, mas gostar de alguem e não poder estar ao lado dessa pessoa).

Anônimo disse...

o_o lindo
uma historia comovente
vc realmente escreve bem
amei

;***

Dri disse...

Que bonito, Tikrey.

*_*